A proteção veio do céu

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Agosto de 1945. Término da Segunda Guerra Mundial. Naquele tempo as notícias demoravam a chegar ao Sul do país. O velho Casarão da Caixa D’água estava longe de ser uma fortaleza, onde o Exército instalara um novo posto de guarda e segurança. Havia boatos na cidade sobre o envenenamento da água que abastecia a população. Falava-se em dizimação em massa de pessoas como vingança dos alemães e italianos por terem perdido a guerra.

Aquele final de tarde era o primeiro serviço do comandante da Guarda no posto de segurança, distante cerca de trinta quilômetros do povoado. Relâmpagos triscavam o céu no horizonte, enquanto um cusco preto latia enlouquecido no gramado. O cão, que é intuitivo, tem a visão e o faro aguçados. Ele parecia pressentir o perigo. Naquele momento, o comandante da guarda chamou o soldado para fazer a ronda noturna. Uma hora depois, estavam de volta, escoltados pelo vendaval como o prenúncio do caos.

Anoiteceu e o temporal chegou arrasando tudo. O vento forte inclinava as árvores e agitava o matagal. O comandante espiou pela janela, lá fora, e viu raios que riscavam fogo e abriam clarões na floresta.  Nunca tinha visto a natureza com tanta fúria. O ribombar dos trovões pareciam desafiar os canhões do Exército. Fechou a janela e aquietou-se perto do fogão a lenha.  O motorista do quartel não apareceu para trazer o jantar. O soldado e o caseiro improvisaram um lanche para passar a noite.

Chuva, frio e ventania. O gemido do vento era de arrepiar. Portas e janelas rangiam as dobradiças enferrujadas. Os relâmpagos se tornavam cada vez mais intensos. A tempo, o comandante olhou novamente pela janela e viu quando os galhos da gigante árvore que protegia o casarão inclinaram-se na direção do solo como a pedir clemência. Rápido, fechou portas e trancou janelas.  A comunicação pelo rádio havia se perdido. Com fome e sem nenhum apoio, eles estavam completamente isolados.

Na cozinha, o soldado acendia uma lamparina de querosene. Vigilante, cuidava em manter a chama acesa para economizar a lanterna de pilhas. O comandante estava bastante apreensivo, mas tentava manter uma aparente tranquilidade.  Afinal, toda a responsabilidade sobre aquele local era dele. Pressentia que o velho casarão poderia se transformar em ruína a qualquer momento. Viu o medo nos olhos dos companheiros, sem  menosprezou o tamanho do problema. Engoliu um café com pão e queijo e foi dormir.

No salão do alojamento havia duas camas de solteiro, ambas de ferro: uma para o comandante e outra para o soldado. Algo sinalizava que aquela noite seria sinistra. O comandante deitou-se e permaneceu por algum tempo com olhos fixos no teto que se iluminava a cada segundo. Do lado oposto, dormiam o caseiro e o vira-lata, acostumados à rotina do lugar. Lembrou-se de sua mãe e sentiu saudades de casa. Em seis meses, fazia carreira no Exército Brasileiro e já mandava nos soldados. Missão dada era missão cumprida!

O soldado logo adormeceu, alheio a guerra no céu. O comandante voltou-se para o lado da parede e fechou os olhos, escutando aquele ruído assustador.  De repente, ouviu-se um estrondo. Era como se um furacão tivesse rompido do alto. Viu pelo clarão do relâmpago, aquela árvore gigante desabar sob o casarão. Levou a mão na ingênua tentativa de segurar a árvore e rápido deslizou o corpo para debaixo da cama. Um rombo abriu-se no telhado do velho casarão e a chuva invadiu impiedosamente.

A avalanche d’água, o vento e o frio transformaram aquele lugar num verdadeiro hospício. Preso embaixo da cama, sentiu a água gelada encharcarem as suas roupas. Parte da árvore impedia a sua saída. As pernas doíam muito. Ficou ali, inerte, sem saber por quanto tempo. Chegou a pensar que não sobreviveria.  Em meio ao dilúvio, nada podia fazer nem tinha a quem recorrer. Aquele cenário era a visão do inferno.

Chamou pelo soldado e o alertou para se proteger. O aposento do caseiro estava a uns vinte metros dali. O homem era deficiente e não conseguiria se locomover, já que a perna esquerda era mais curta devido a paralisia, o que dificultava seus movimentos. Precisava ajudá-lo.  Chamou-o por várias vezes. Gritou por seu nome, mas não ouviu resposta. Enquanto isso, o temporal não dava tréguas. Esperou algum tempo e voltou a chamá-lo, porém mais uma vez não houve resposta.

Depois de algumas horas sob rugido do temporal, reuniu forças e conseguiu afastar os galhos que obstruíam a sua saída. Com esforço, arrastou-se em meio a lama e foi abrigar-se próximo à parede em um lugar mais alto. Ali, sentou-se  e ficou em silêncio a espera que o dia clareasse. Aos poucos, os trovões foram cessando, a intensidade do vento diminuiu, mas a chuva continuava intermitente. Era como se estivesse dentro de um rio caudaloso.

Preocupado com a vida do caseiro, o comandante equilibrou-se na difícil tarefa de caminhar entre troncos, galhos e folhas. A cada passo, seus pés dançavam dentro dos coturnos cheios de água. Ao aproximar-se viu que parte da parede do casarão estava inclinada sob a cama do caseiro e pensou na tragédia inevitável. Retirou  pedaços de madeira que obstruíam o caminho e foi esgueirando-se  em meio aquele ambiente confuso.

O comandante estava exausto. Contornou os obstáculos e conseguiu entrar por um espaço entre duas paredes que haviam cedido. Um rio de águas passava por ali. Olhou por uma fenda da pranchada e viu um corpo encolhido sobre a cama. Hesitou. Estava desolado. Chamou o soldado: “Me ajuda aqui, companheiro!” Precisava de alguém para testemunhar aquele momento. Com cuidado, afastaram as tábuas que impediam o caminho e entraram no diminuto espaço fechado pelo temporal.

Ali dentro daquele espaço não chovia. Com uma das mãos tocou no pé do caseiro e com a outra puxou a manta. “Tá tudo bem, senhor!”, disse o homem em sobressalto. Ao ouvir a voz do caseiro, o comandante paralisou diante cena, só despertado pela implicância do vira latas que latia sem parar. O curso da enxurrada se desviou e parte da parede formou uma espécie de casulo sobre a cama, isolando o homem e o cão daquele caos. Ambos dormiram toda a noite, salvos pela proteção que veio do céu.

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