A cidade clama por justiça

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Cidade Universitária e Centro Estudantil são títulos de um lugar que acolhe jovens de diferentes rincões deste país, em especial do interior do Rio Grande do Sul. Localizada no coração do estado, a cidade habita uma gente forte e aguerrida.  Todos os anos, jovens sonhadores ali aportam para ficar um tempo, beber da fonte do saber e depois partir para novas aventuras.

A cada ano, esses jovens reinventam novos espaços para suas conexões, atraídos pelo convívio de uma geração que vive o auge da liberdade de expressão. Filhos da Constituição de 1988, exuberantes e donos de si, trilham seu próprio caminho, muitos deles distantes do olhar paterno. Nada os detém, exceto o desejo de alçar voos cada vez mais altos.

A missão da cidade é projetar o talento de seus filhos para o orgulho de sua gente. Cada nome que se destaca no cenário nacional ou internacional é como se fosse um troféu. Outrora, não se ouvia falar de violência, corrupção nem desgovernos, embora os esquemas e estratagemas fossem tramados nos mais recônditos abrigos. Todavia eram tempos de esperanças. Hoje, a cidade que resplandecia vida e liberdade além-horizontes mudou completamente.

Sempre delimitou diferentes espaços para acolher a juventude. A Avenida Presidente Vargas, por longo tempo, foi um dos points de reunião de amigos. Eles estacionavam seus carros ao longo da rua, bem no finalzinho das tardes de domingo para a prosa da semana, acompanhados do som dos mais diversos estilos musicais e do inseparável chimarrão. Uma multidão tomava conta daquele lugar para encerrar o fim de semana com alegria e animação.

Hoje, sobre a cidade paira uma névoa invisível que separa o ontem do hoje. O sentido da vida foi assassinado pela incoerência da mais arrebatadora loucura, que repercutirá para sempre no coração humano. Jovens projetaram seus nomes para o marketing da eternidade, porém, suas imagens e seus sorrisos ainda vagam pelo inconsciente coletivo em dias de vento norte.

A cidade amanheceu sob o signo da morte, com sua comunidade   aterrorizada.  De norte a sul, de leste a oeste, seu povo chorou. O chão sagrado se inundou de lágrimas de sangue e sensibilizou o mundo. A dor e a tristeza tomaram conta das ruas. Naquele dia, 242 jovens embarcaram em uma aventura para nunca mais voltar.

Desde então, o luto e a saudade ocuparam lugar permanente no coração da cidade. A alegria cedeu lugar para o monumento aos mortos que lembrará para sempre a dor e a tristeza que nunca terão fim. Um arquiteto simbolizou a presença de cada história que servirá de alerta à responsabilidade de todos no compromisso com a vida.

Aqueles que chegaram depois da tragédia ainda tentam reconstruir novos espaços, mas é como se tivessem perdido o link. A conexão ainda é lenta. Mas um povo forte e aguerrido não desiste nunca. Não importa o tempo, Santa Maria da Boca do Monte clama por justiça. A cidade jamais esquecerá seus filhos que tombaram pelo caminho.

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