O mal entendido

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                                          Dívida, ódio e revolta…

Na pacata cidade do interior, a velhinha entra no departamento de cobrança da loja disposta a tudo. Um metro e meio de altura, pele enrugada, magrela, usa um vestido floreado e longa cabeleira grisalha descendo pelos ombros. Do lado direito, aperta a bolsa a tiracolo como quem teme ser roubada.

A velha transpira indignação e mau humor. Ansiosa, pressiona o corpo contra a quina do balcão de madeira, ergue-se na pontinha dos pés, realçando os calcanhares rachados nas sandálias de cor marrom e salto quadrado, estica o pescoço e vê o funcionário do outro lado, sentado, de cabeça baixa, alheio a tudo,  fazendo suas anotações.

De tanto ouvir na mídia: procure o seu direito, a velhinha não arredaria pé sem a solução do caso. Agora eles iriam aprender a não maldar com os outros. Impaciente, após alguns segundos, força um pigarro para atrair a atenção do funcionário, que olha com o rabo do olho, mas faz de conta que nem é com ele.

A experiência na roça, de sol a sol, ensinou-lhe que o dia começa cedo e tempo não se perde. A velhinha fica por alguns instantes pensativa, com olhos fixos num ponto qualquer do comprido balcão. Cerca de oito minutos depois, vê quatro pessoas sentadas a espera de serem atendidas e resolve agir. Bruscamente, abre a bolsa, tira um envelope branco e vocifera:

— Paguei a minha conta e vocês mandaram esta carta, dizendo que estou em dívida. E acrescenta: Olha aqui, eu não sou caloteira, afirma do alto da sua insatisfação.

O desabafo em voz alta chama a atenção da restrita plateia que pressente no ar a armação de barraco. Diante de tanta veemência, o funcionário levanta-se da cadeira, põe as mãos no queixo, apoiando os cotovelos sobre o balcão, em clara demonstração de má vontade. Sozinho no setor, enquanto os colegas ainda estão no intervalo do almoço, resolve aplacar a ira da velha e sem muito tato repete obviedades.

— A senhora há de convir, que se recebeu uma carta é porque tem um débito. Tudo está registrado em nossos computadores, diz o funcionário, certo de que a velhinha só veio fazê-lo perder tempo.

Sem nenhum sinal de recuo, com ódio nos olhos, ela dispara uma resposta à queima roupa, negando tudo. Avisa que não vai pagar duas vezes e ameaça chamar a polícia. Junta os olhos, franze as sobrancelhas, e sem dar tempo para o funcionário, descarrega toda a sua ira.

—  Moço, vocês trabalham muito mal e a gente é quem paga o pato”, gesticula, furiosa.

O pato, que não tinha nada a ver com a história, entra nessa de graça. A velha sem titubear, exige uma decisão imediata, encostando o funcionário contra a parede.

— O senhor vai ou não vai resolver o problema?  Indaga, com ar de quem está gostando do combate.

O clima esquenta. O gerente chega e paralisa diante do escândalo. Tenta disfarçar a sua presença, folheando as páginas de uma revista. O funcionário está sem saída, limitado em suas habilidades e o chefe nem se manifesta. A velha está longe de ceder e muito menos de fazer qualquer acordo.

Já estressado, o jovem nem escuta mais o que a velha diz. Faz um muxoxo como se não tivesse nada a ver com aquilo e imagina, que se pudesse, estaria com uma arma na mão para livrar-se dos caloteiros agressivos. Tudo o que ele mais deseja é que aquela criatura cale a boca e vá embora.

— Senhora, o computador não erra. Tudo é registrado automaticamente, ainda insiste o atendente confiante na sua tecnologia.

Disposta a se vingar do relapso funcionário, a velha sai resmungando baixinho. Aliviado com a saída da intrusa, o gerente tranquilamente se dirige a sua sala e tudo volta à normalidade. Os clientes comportados fazem fila para a liberação de crédito. De repente, dois homens fardados invadem a loja, acompanhados da velhinha, que dedo em riste, aponta para o seu algoz.

O pobre funcionário acuado e temendo pelo futuro, antevê que a velha é do tipo que não se rende fácil. Só então, o corajoso gerente aparece para esclarecer os fatos, propondo um acordo para encerrar de vez o caso.

— Eu não quero acordo, nem indenização. Só quero o meu direito e não saio daqui, enquanto não tirarem o meu nome dessa sujeira, vocifera a revoltada anciã.

No local, os policiais percebem o mal entendido e orientam a ofendida consumidora para formalizar a sua denúncia de perdas e danos em ação judicial. O gerente, atazanado, pede um prazo de vinte e quatro horas para restituir-lhe o valor da dívida cobrada, alegando tudo a um terrível engano. Dona da razão, ela sai triunfante e com um olhar severo alerta o funcionário:

— Nunca mais tente enganar ninguém, nem ponha a culpa no computador, sentencia e afasta-se  indo embora com a consciência tranquila de quem não deve nada a ninguém, nem mesmo aceita que lhe passem a conversa.

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