Um grito no silêncio da noite

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Estirado na rede da varanda de sua casa de campo, Oliver sorve um gole de vinho da Toscana – presente do amigo italiano – e descansa a taça na pequena mesa de apoio. O sol desaparece além-horizonte, enquanto as nuvens dançam na imensidão do céu. A silhueta das árvores revela o contraste com a tropa de gado no campo, ruminando silenciosa a espera do anoitecer.

Inspirado pela tranquilidade do ambiente, Oliver estira o braço, pega o violão encostado à parede e dedilha um solo de Miguel Luís, improvisando um dueto com o canto do uirapuru. Embalado pelas reminiscências de suas canções, perde a noção das horas. O entardecer entra em modo silencioso disposto a fustigar lembranças. Longe da família e dos amigos, Oliver anda cheio de mistérios depois que escolheu viver recluso junto à natureza.

Sereno como a alma de uma criança, ele não é nem a sombra do homem poderoso do marketing digital, que media o tempo em nanossegundos; o bem sucedido publicitário, que trabalhava dezoito horas por dia para atender empresas e organizações internacionais, viajava com tanta frequência que passou a viver dentro de um avião. A carreira de ascensão meteórica lhe rendeu uma vida milionária cercada de prestígio, luxo e vaidade. Até que um dia, sem aviso prévio, a vida decidiu cobrar a conta. Imagens ainda confusas não registram em sua memória quando ele saiu de órbita.

Dois anos passam tão rápido. Agora, está ali, a sós com seus pensamentos, quando ouve um grito aterrorizante vindo do interior da casa, interrompendo seus pensamentos. Sente o corpo estremecer. Dá um salto da rede como quem acorda de um susto e corre para o interior da casa a procura da estranha voz.  Aquele som ainda ecoa no ar,  indecifrável na sua cabeça.

Com um clique acende todas as luzes e aguça o olhar pelo interior da residência. Intrigado, percorre a imensa cozinha, revista os quartos do casarão, mas nada denuncia qualquer irregularidade. Nenhum vulto nem sombra. Vai até a piscina e não vê movimento algum. Tudo está calmo do jeito que sempre esteve. Não há sinal de violação no ambiente. Ouve apenas o som da cascata e do vento nas folhas das árvores.

De repente, em meio à escuridão da noite, Oliver sente frio e medo, pressentindo o fio de uma navalha na sua garganta. Entra na sala e pisa em algo viscoso e resvala, quase caindo.  A visão de uma poça de sangue o deixa transtornado. Não há rastros. Vai até a janela aberta e espia lá fora, procurando sinais de uma fuga imediata. De repente, experimenta uma sensação de vertigem, fecha os olhos, e por alguns segundos perde as forças a flutuar no espaço envolvido por uma espiral de sangue.

Horas mais tarde, tudo está calmo e no seu devido lugar. Oliver sente a brisa vinda da floresta e caminha lentamente até a varanda, sob o peso da decepção e uma tristeza que molha seus olhos no mais profundo silêncio de sua alma.  Até quando será refém das alucinações cada vez mais frequentes?

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