Nada é previsível

Tinha tudo para ser uma noite feliz. Mas quem disse que a vida segue planejamentos?  Meu velho pai dizia que “a gente faz um plano e Deus faz outro”. Na sua simplicidade ele apenas queria me dizer que os acontecimentos da vida são imprevisíveis. Uma verdade inconteståvel está na frase eternizada pelo grande poeta Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Confesso que na minha adolescência achava essa frase meio confusa, mas logo as experiências forjaram o meu entendimento.

Faço essa introdução para refletir sobre a tragédia que pôs fim a vida de um jogador de futebol bem sucedido, cujo caso ganhou repercussão na midia nacional pela crueldade humana. A família, que demonstrava alto poder aquisitivo e aparentemente pessoas do bem, convidaram seus amigos para compartilhar alegrias e fortalecer amizades. Quem diria que a festa de aniversário de 18 anos de uma jovem, momento inesquecível que deveria marcar sua vida de forma positiva, pudesse ter um desfecho inimaginável?

Os convidados certamente escolheram uma roupa especial para aquele dia, compraram um presente para homenagear à aniversariante, comentaram o evento com várias pessoas e até criaram um clima de inveja para quem não foi recepcionado com o convite em um ambiente tão luxuoso e requintado.  As pessoas se encontraram para viver intensamente, motivadas por uma conexão estabelecida pelo tempo de convívio. Elas escolheram confraternizar juntas aquele momento.

A imprevisibilidade da vida e a ação humana estão interligadas e nem sempre se comunicam pelo mesmo código.  Para alguns, festa é sinônimo de bebedeiras e folias. Está no imaginário coletivo de que é preciso extravasar e ir além dos limites para se autodesafiar. Que o sentido está em fazer muito barulho para que a sua ousadia não seja esquecida. “Encher a cara” é mostrar que não se está nem aí e que o sujeito detém o seu livre arbítrio para fazer o que bem quiser. Tal comportamento, muitas vezes, leva a consequências desagradáveis.

Depois de curtirem momentos que ficariam para sempre na lembrança das boas coisas da vida, as pessoas apagaram seus registros da memória em uma fração de segundos. Bastou alguém ultrapassar a linha tênue de um limite para que aquele grupo não mais se reconhecesse, anulando todo o tempo de convivência. De repente, o amigo virou inimigo e o convidado foi desconvidado. A festa de confraternização se transformou em uma confusão de sentimentos fora de controle. O bem foi substituído pelo mal e os assassinos se revelaram na cena do crime.

O jovem atleta perdeu sua vida.  Ele queria apenas colecionar o maior número de mulheres para a sua fama de pegador e acabou pagando caro pela brincadeira arriscada. A vida de sete pessoas saiu do ambiente luxuoso e requintado para exporem suas mazelas e se revelarem ao mundo sobre quem realmente são.  A máscara caiu. A vida entrega sempre a colheita do que se planta. Quem vivia na arrogância da ostentação, agora está na vitrine da rejeição humana.

Esta tragédia fere profundamente a nossa alma e expõe a iniquidade do ser humano. A realidade está posta em meio às contradições.  A única verdade é a imprevisibilidade da vida, diante da qual, devemos estar sempre vigilantes.  O equilíbrio é uma forma de manter o sinal de alerta ligado na diversidade do tempo. Pautar-se por comportamentos ilimitados, sem calcular o risco, é uma forma de morrer por nada. Afinal, nada é previsível!

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