
Quinta-feira, manhã de sol, quando Jhony, mestre em ciência positiva, entra na sala de eventos, no hotel de um bairro nobre da cidade. Ele desperta a curiosidade das pessoas que estão ali para assistir a palestra do ano. Profissional da psicologia atua no desenvolvimento de carreiras. É a primeira vez que ele vai ministrar um treinamento para cerca de duzentos jovens.
Legítimo representante da comunidade japonesa, discreto no visual, circula livremente entre as pessoas, sem se apresentar. O olhar sereno, de quem observa tudo e fala pouco. Veste um elegante terno preto, de gola alta, que acentua um ar de mistério, apesar da estatura de pouco mais de um metro e cinquenta. Aquela roupa escura, sugere uma atmosfera mística. Leveza e agilidade indicam que ele tem alguma intimidade com as artes marciais ou com a dança.
Usa uns óculos de grau de cristal e quase invisível. Tem a pele clara e a fisionomia de um menino. Linguagem simples, fala mansa e mede cada palavra. A boca pequena expressa um leve sorriso de acolhimento a todos que aproximam. Quando questionado, fixa o olhar no emissor e lhe dedica sua total atenção e não perde nenhum detalhe do conteúdo da fala.
Embora pareça discreto, ele não passa despercebido, nem mesmo ao observador mais desatento. Cabelo aparado e desbastado cerca de dez centímetros na nuca. No lado esquerdo, uma mecha cai levemente na testa, deixando transparecer no direito alguma tendência à futura calvície. Mas são as luzes douradas nos fios de cabelo, que lhe dão a aparência jovial e provocam comentários na plateia feminina.
Um grupo de mulheres já identificou o palestrante e uma delas não resiste e comenta com as demais colegas: “Eu nunca tinha visto um japonês louro!” Todas riem, mas aprovam o visual do palestrante. Outro detalhe, que também não passa despercebido: o modelo dos sapatos pretos parece destoar do conjunto. O design em um formato achatado lembra as antigas galochas, aquelas botas de jardineiro criadas nos anos 60.
Concentrado, Jhony verifica o som, a iluminação, testa o microfone e a mídia da palestra. Independente, ele não precisa de ajuda para acionar as funcionalidades dos equipamentos. Após ajustar o material de apresentação, ainda sobra um tempo para um cafezinho, algumas selfs na interação com as pessoas que se o procuram para entabular conversações.
Jhony é instrutor de coaching, um curso de alto impacto na personalidade humana. Dividido em dois módulos de quatro dias cada um. O segundo módulo acontece no final do mês, quando ele voltará para completar o trabalho de evolução na carreira profissional de jovens recém-saídos da universidade. A jornada será de oito a dez horas. Se diz atemporal. Seu público é conectado e ninguém está ali por acaso.
A primeira vista, o palestrante parece tímido. Entretanto, logo essa imagem se desfaz diante do potencial e do talento para encantar e atrair pessoas. Sua fala é um mergulho no inconsciente coletivo. A empatia com a plateia é imediata. Ele fala sobre o autoconhecimento, transformação e ação como poderosas estratégias na conquista de metas e objetivos desejados.
Jhony inicia a palestra, contando a história de sua vida e suas indecisões na escolha da profissão. Na juventude, custou a descobrir o que queria fazer na vida. Passou pela informática, engenharia e relações públicas. Mas um dia largou tudo e foi trabalhar no Japão durante três anos. Lá, amigos e colegas, que se sentiam muito sós, o procuravam para conversar. Eles lhe diziam sentir-se aliviados depois dos diálogos. Foi assim, que ele descobriu o dom de ajudar pessoas.
Sua voz é calma e serena e ele diz que cada pessoa deve honrar e respeitar a sua história. Para ser bem sucedido é necessário ser capaz de contar a versão de sua própria história e se orgulhar do caminho trilhado. Após três horas de palestras, o intervalo é de 20 minutos. Na volta, ele liga o som e convida a plateia para relaxar com uma animada coreografia, revelando-se um expert na dança. Quanto mais interage, mais aproxima pessoas.
O psicólogo usa a força da palavra para desperta o sentimento humano. “Descobri que é possível entrar em um estado físico e mental que integra ao mesmo tempo: alta concentração, criatividade, motivação, emoções positivas e alto desempenho”, explica para a plateia atenta. A concentração e a sintonia com o palestrante é plena.
Ao final do dia, após oito horas de palestra, em pé, aqueles estranhos sapatos fazem parte da longa jornada. O carisma do palestrante parece anestesiar a plateia, que não demonstra nenhum cansaço. Poucos perceberam que ele deixou os sapatos e está só de meias, na cor preta, circulando pelo salão. Os sapatos ficaram em algum canto da sala.
Encerra a palestra falando de uma revolução que produz prazer, satisfação e felicidade. Mostra uma realidade poderosa e pouco explorada que faz as pessoas evoluírem. Fala sobre um conjunto de competências e habilidades que pode ser desenvolvido por qualquer pessoa para alcançar um objetivo na vida pessoal ou profissional até vinte vezes mais rápido. A palestra de coaching é a sensação do momento.