Imaginação e realidade

Naquela noite, a mãe ouviu vozes no quarto de Catherine. Pé ante pé foi até lá, espiou pela porta entreaberta e viu a filha gesticular e conversar com seus personagens imaginários. Achou engraçada aquela imaginação tão fértil. Porém, pensou que não devia interromper o momento de criatividade e voltou a dormir.

No dia seguinte, a menina não cabia em si de tanta ansiedade para chegar à escola, que se recusou a tomar o café da manhã. Inquieta, não ouvia nenhum dos apelos da mãe, por mais que ela tentasse negociar. Suas moedas de troca já não tinham mais o mesmo valor.

Linda com seu vestido azul e sapatinhos da mesma cor; o laço de fita prendia os cabelos longos caídos pelos ombros. Lá se foi a princesa transformar sonhos em realidade. Ao atravessar o portão da escola, a menina avistou a professora e correu ao seu encontro. A tia abraçou-a forte, sem deixá-la se afastar, e perguntou baixinho no seu ouvido:

— Você dormiu bem a noite, Catherine?

— Não, disse a menina, balançando a cabeça, e acrescentou: Esqueceu que hoje sou Chapeuzinho Vermelho e vou passear na floresta?

Desde que descobrira as aventuras do Pequeno Príncipe, Catherine só pensava em como resolver seus problemas. Onde ele iria encontrar um carneirinho para comer os baobás que cresciam na terra? Ela andava tão preocupada com Pinóquio, o boneco de madeira que desejava ser menino de verdade. A fada azul prometeu ajudá-lo, mas ele tinha que obedecer, ser honesto e ter responsabilidade.

Catherine conversava com Pinóquio e pedia que ele fosse bonzinho para virar menino de verdade e poder brincar. Ela sonhava que a menina Dorothy encontrava o Mágico de Oz e voltava para sua casa. Mas era por Branca de Neve que ela mais sofria. A princesa era perseguida pela madrasta por ser mais bonita que ela. E por isso, teve que viver na floresta, onde conheceu os sete anões.

Aqueles personagens eram os encantos de Catherine na hora do recreio. A cada dia, ela conhecia mais sobre seus heróis dos clássicas infantis no espaço de Contação de Histórias da escola. Ela se entregava ao convívio daquele mundo irreal que, às vezes, confundia a própria realidade. Acordava no meio da noite aos prantos, depois de ter sonhado com seus amiguinhos.

A verdade da criança é mesclada de espontaneidade e sutilezas que só mundo infantil revela. Os pais viam os exageros da menina com certa preocupação, mas ouviram dos professores que aquilo era normal para uma criança de seis anos. Logo, tudo iria passar.

Um desfile de personagens infantis foi organizado pela escola e cada criança representaria o seu herói. A semana inteira não se falou de outra coisa que não fosse o mundo encantado da fantasia.

Chegou o grande dia e lá estavam na passarela: o Gato de Botas, o Pinóquio, o Pequeno Príncipe, o Pequeno Polegar, o Mágico de Oz e outros amiguinhos. Ceciliana era a Chapeuzinho Vermelho. Toda vestida de carmim, com o aventalzinho branco de rendas; duas tranças emolduravam seu rosto, trazendo no braço a cestinha abarrotada de flores silvestres. Fez poses com graça, sorriu e acenou com beijos para a plateia.

Quando terminou o desfile, a menina saiu dizendo que iria para a floresta levar flores e doces à vovozinha. Mas nem a mãe nem a professora deram credibilidade àquela declaração da menina. Era apenas mais uma visão do mundo onírico.

Há três dias a comoção tomou conta da cidade. A notícia do desaparecimento de Chapeuzinho Vermelho ganhou a mídia nacional. A polícia investiga a suspeita de rapto da criança.

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