
Naquele fim de tarde, Selênia ouve uma conversa que a deixa intrigada. Escuta, quando a futura sogra diz a sua arquirrival: Ele já sabe de tudo, e vai conversar com ela. O diálogo sem pé nem cabeça dá o que pensar e acende o sinal de alerta: Então, Alberto já sabe e só espera o momento para tomar a sua decisão. É o fim do relacionamento. Nada mais pode fazer.
O fato é que ela tinha ido longe demais. A dois meses das núpcias, as amigas deram um jeito de armar a sua despedida de solteira. Nada mais adequado que um congresso no Rio de Janeiro, com direito a muita diversão, prazer e aventura. Desde então, aquele segredo atormenta cada minuto de sua vida. Sente calafrios só de pensar no dia em que Alberto descobrir seu deslize.
Ele já sabe de tudo! Aquelas palavras provocam um sentimento de culpa. Depois de uma noite de insônia, Selênia sente-se ameaçada e começa a perceber que seu castelo de sonhos está prestes a desmoronar. Nos últimos dias, o noivo andava imerso nas decisões do doutorado, e por isso, aquele silêncio não despertara nenhum tipo de estranheza. Porém, aquela conversa, por obra do acaso, tem tudo a ver com a sua realidade.
Na manhã seguinte, Alberto está monossilábico e lê um texto de seu trabalho da faculdade entre um gole e outro de café. Deixa transparecer uma profunda introspecção. Ao término do desjejum, enquanto fecha o livro, sem mais delongas, diz em tom inquisitivo:
—À noite, precisamos conversar, Selênia!
Aquelas palavras soam como um tiro a queima roupa. Selênia não tem mais dúvidas de que aquele chamado é a confirmação da conversa que ouvira. Aturdida entra em estado de choque. Talvez um raio não tivesse um efeito tão devastador. Não é capaz de esboçar nenhum gesto. Por mais que tente dizer algo, a voz fica presa na garganta.
Ato contínuo, ele levanta-se da mesa, dá-lhe um beijo suave na testa e sai sem dizer mais nada. Parece tão apressado, ou talvez, a estratégia é sair logo dali para não lhe dar tempo de questionar o assunto. Atônita, ela o vê desaparecer pela porta. Quando escuta o ronco do motor de carro, tem a certeza de que está a sós com seus pensamentos em total estado letárgico.
Aquela reviravolta acontece quase às vésperas do casamento. Está tudo pronto! A mansão em que os dois vão morar é um palácio encantado. De um lado, a visão da montanha; do outro, o mar e a praia. O cheiro de flores no imenso jardim adornado pelas estátuas de mármore. fonte jorra correntes de água cristalina. Tudo obra de um decorador francês, amigo de Alberto. A sala de jantar destaca o brilho dos lustres. A piscina de luxo.
Sete anos de namoro. Ela o ama muito. Mas, conhece bem o temperamento de Alberto e sabe que ele não perdoará aquela traição. Consegue imaginar a decepção e a tristeza dele, pois também deve saber sobre a mensagem de seu affaire. A situação fugiu ao controle. Precisa dissipar as sombras que pairam sobre o seu destino. Logo mais, o último encontro é apenas para dizer que casar não tem mais sentido. Diante de seu maior dilema, Selênia chora sozinha.
A noite chega. Alberto escolhe o melhor restaurante da cidade e a convida para jantar. O bilhete traz uma única frase: Tenho uma surpresa para você. A maquiagem esconde os olhos cansados de tanto verter lágrimas. O constrangimento invade sua alma, mas é tarde para se arrepender. Naquele momento, tudo o que ela mais queria era que o chão se abrisse e a engolisse para sempre.
Enquanto aguardam o prato especial da casa, Alberto faz um brinde àquele encontro. Com um gesto carinhoso, segura suas mãos e olhando dentro de seus olhos, repete o convite:
— Você quer casar comigo e morar na Inglaterra? É lá que vou fazer meu doutorado.