A mordaça

A quarta-feira promete um dia atípico no quarto andar do edifício Atlanta. Naquele dia, por alguma intuição, Lorrayne resolve chegar mais cedo para o trabalho. Passa pelo cafezinho e vê os colegas em acirrada discussão. Decide não ficar ali e, sem dizer uma palavra, segue para sua mesa.

O aroma do café invade a sala e como um bálsamo estimulante ativa seus circuitos cerebrais, remetendo-a para momentos em família. Não é hora de reminiscências. Aturdida pelo tom de vozes acaloradas, e curiosa para entender o que está acontecendo, questiona a colega do lado:

— O que houve?

— O alvoroço é por conta da sua matéria, que está pegando fogo. Veja os comentários no site.

Lorrayne liga o computador e vê o expressivo número de dois milhões de visualizações, em menos de vinte e quatro horas. Estupefata, prende a respiração e paralisa: olhar fixo na tela.

A reportagem narra a história de um magnata trazido à barra da justiça por suspeita de assassinato. A trajetória de crimes cometidos por um dos homens mais influentes do país, detentor de importante cargo no governo, cuja investigação tramita em segredo de justiça. A base é o depoimento de uma testemunha-chave do processo. Os advogados acusam o Ministério Público de repassar informações à imprensa.

A informação se espalha como rastilho de pólvora a provocar incêndios por toda a parte. A pergunta que não quer calar: como aquele documento chegou às mãos de Lorrayne? A deusa das fontes exclusivas não revela o nome de seu informante nem sob tortura. O crime escandaliza o cenário político e econômico do país. O dólar cai e a bolsa despenca em declínio gradativo.

De personalidade forte, a jornalista não se intimida nem recua em suas posições. Para ela, por pior que seja um órgão de imprensa, ainda assim, é preferível ao silêncio. Defende que um povo só é livre quando a imprensa está a serviço da liberdade de expressão; do contrário, as arbitrariedades do poder público ameaçam direitos fundamentais.

Naquele momento, o diretor Anderson entra na sala e vê Lorrayne ainda incrédula pela revolução de sua matéria multiplicada pelos demais órgãos de imprensa. Ele a cumprimenta pelo sucesso da reportagem e vai direto ao ponto; requer uma suíte (sequência de uma matéria) para aproveitar a visibilidade do site. Usuários acompanham perplexos as profundezas do lodaçal da corrupção.

Às nove horas em ponto, um homem corpulento, cabelos grisalhos e barba aparada chega à recepção. O misterioso emissário quer falar com o diretor do site e logo é levado a sua presença. Sem meias palavras, ele se identifica como oficial de justiça e entrega a notificação urgente.

A ordem é retirar a matéria do ar. A situação confronta a Constituição e não se coaduna com ares democráticos. O comunicado também ameaça: a não retirada da matéria do site impõe multa de cinquenta salários mínimos por dia. O homem colhe a assinatura, entrega o papel, dá as costas e vai embora.

A censura é mordaça. Os jornalistas estão desolados e tentam digerir aquela ameaça.

Lorrayne quebra o silêncio: Precisamos de uma poesia que nos tire do lodaçal.

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