Meu cusco amigo

Eu ainda me lembro dos fins de tarde no campo, quando o sol descambava no horizonte, depois do desenlace de mais um dia de lida. O céu exibia rabiscos de tons nobres entre raios dourados e nuvens aventureiras. Aquela natureza me encantava. Quem nunca se deslumbrou com o pôr do sol, não sabe o que é sonhar.

Anoitecia e os vaga-lumes piscavam, enquanto a sinfonia de insetos fazia a festa. O urutau emitia sinais, com o seu canto tenebroso que mais parecia um lamento humano. O pássaro, que costuma ficar no alto de um galho seco de árvore, é associado a maus presságios por causa do seu grito.  Ele canta como quem chora a perda de um grande amor.

Em uma dessas tardes de um verão de maio, eu repontava o gado para o potreiro, onde os animais permaneciam à noite, confinados, para afugentar o abigeato, em voga na região. No dia seguinte, os animais ganhavam a liberdade, logo ao alvorecer.

Meu melhor parceiro de campeirada era um cusco baio de nome Corisco, pois era ligeiro como um raio. Cruza da raça Collie com vira-lata. Ninguém dava nada por ele, devido àquela aparência de cachorro de madame. O cão mais inteligente que eu já vi. Tinha pose. Sobre os garrões sentadito, apoiado nas patas da frente, ficava de orelhas em pé, bombeando e a perscrutar qualquer ruído estranho. Tinha a intuição da lida.

— Eia boi, eia, eia…

Montado no meu tordilho, sinalizava o meio da tropa e apenas acompanhava o reponte. O Corisco, que sempre estava presente, fazia o serviço direito. Não deixava nenhum animal se desgarrar. Quando um boi enveredava para um lado, ele corria lá e atacava, persuadindo o bicho até retornar para a tropa. Ia de um lado a outro, latia, e não sossegava enquanto a rês não alinhasse em direção ao potreiro.

Depois de tanger o gado, eu fechava a porteira e voltava para casa. Corisco caminhava na frente, a trotezito, abanando o rabo, satisfeito com o cumprimento do dever.

O cusco fazia o seu trabalho sem reclamar, pois já estava acostumado com aquela empreitada.

Na volta, soltei o tordilho no pasto e resolvi montar o potro, que estava em estágio de doma. Já era quase lusco-fusco (momento de transição entre o dia e a noite), quando fui dar uma passeada pelo campo. O cavalo saiu veaqueando, mas nunca me acovardei diante de um potro arredio, por mais ousado que ele fosse.

Seguimos pela coxilha. O Corisco acompanhava a façanha meio de longe. Corria na frente e olhava para trás, como quem mantinha o controle da situação. O cão parecia adivinhar que o bicho ia pegar. De repente, o cavalo levantou as duas patas da frente e saiu corcoveando. Puxei o freio e senti um frio no espinhaço. Em segundos meu corpo estava no ar em direção ao solo.

Hoje, em frente de casa, preso a minha cadeira, o cusco espera pelo meu grito:

— Eia boi, eia, eia… e até parece que diz:

— Patrão, deixa comigo.

Reponta o gado sozinho, igual a um peão campeiro. Depois ele volta e fica ali, em atitude respeitosa e me faz companhia. Vejo ternura em seus olhos e aquela estranha doçura do afeto que só um amigo reconhece.

*Inspirado no conto Trezentas Onças, de Simões Lopes Neto.

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