
É verão na casa de campo do vovô Leopoldo. Nenito, no auge dos seus oito anos, prepara-se para uma audaciosa aventura. O coração dispara de tanta ansiedade prestes a sair pela boca. É sábado e o avô combina levá-lo para pescar. Esse moleque, travesso, que corre atrás das galinhas e atiça os cachorros nos gatos, nunca participou de uma pescaria.
A imaginação do menino voa. Vovô prometeu ensinar os segredos do bom pescador. Nenito vai até o galpão e arrasta um saco de estopa para colocar o seu troféu, o jacaré; na cozinha, pega a cesta de frutas da vovó e reserva para o tubarão; depois retira a tigela do armário, e sorri feliz. Ele acredita que todos os peixinhos vão ficar contentes dentro daquele aquário.
Lá fora, o sol brilha e o calor reflete sobre a grama ainda verde. Não há canto de pássaros. A vegetação está parada, sem o murmúrio da voz do vento. Entretanto, ao longe, ouve-se o prenúncio da cigarra, que alheia ao próprio destino canta desatinada.
O menino teme que o avô nunca mais desperte da sesta. Por sua cabeça passam estórias mirabolantes… E se a velha bruxa Cândida fez uma poção para vovô dormir eternamente. Ele sempre desconfiou daqueles olhos e dos chás que a empregada fazia, após o almoço. Mas, se vovô não acordar, jura acabar com o feitiço, jogando o gato preto em cima dele. É tudo por uma boa causa, pensa. Vovô sempre disse que promessa é dívida.
Pronto para sua aventura, ele veste uma camisa xadrez azul e branco, bermuda cinza com suspensório, boné azul e botina de couro preta. A cada minuto, olha para o relógio, suspira e balança a perna, impaciente. Só pensa nos lambaris que vai fisgar para o aquário.
Examina todos os equipamentos que o avô preparou para o passeio. Olha as duas varas de bambu, as linhas e os anzóis. Vê a lata de terra com as minhocas. Na parede do galpão, está pendurada a mala de garupa destinada as guloseimas.
Distraído, a hora o alcança, e Nenito corre ao ouvir o ronco do motor do Jipe e a voz do avô que o chama.
Quando vô Leopoldo estaciona o carro, o menino avista o imenso lago. Desenha milhares de peixinhos na mente e nos seus olhos arde a chama da empolgação. Com os apetrechos de pesca, o avô desce por uma estrada estreita que leva até à margem do lago. Nenito segue atrás. Eles se sentam no banco, de frente para o lago, e o avô inicia o preparo das iscas. Enquanto prepara as iscas, conversa com o neto.
Com o olhar de quem conhece o mundo, conta histórias e diz que é preciso batalhar muito para conseguir o que se quer na vida.
Nenito, ansioso, apenas escuta, mas não diz nada. Leopoldo o abraça, sorri e diz:
– Quero lhe fazer um pedido muito especial: prometa que nunca vai mentir. Com mentira, não se consegue ir muito longe, porque ela tem perna curta. E se um dia, cometer um erro e tiver que se arrepender, não tenha medo de voltar atrás, porque sempre há recompensas.
Nenito olha para o avô, espera alguns instantes, e pergunta: – Quando vamos pescar?
– Você sabe como pegar um peixe?
– O senhor, prometeu me ensinar, lembra o menino, já inquieto com aquela demora.
– Para pegar o peixe tem que esperar o momento certo. Às vezes, é necessário aguardar muito tempo. Nunca esqueça que sem dedicação não se chega a lugar nenhum. Ser bom em algo não significa ganhar sempre. Meio caminho andado é o mesmo que meia tarefa cumprida. Sempre termine tudo o que começar.
Leopoldo ensina como jogar a linha uma, duas, três vezes, e finalmente diz:
– Agora é a sua vez.
Nenito fica em pé à margem do lago, joga a vara de pescar lá atrás e puxa com força, jogando a isca na água. Silêncio e espera se eternizam. Cresce a expectativa, que parece aumentar a espera.
De repente, a vara verga e um enorme peixe é fisgado. É um peixe dourado, daqueles marcado pela extinção e proibido de pescar:
– Você tem que devolver, filho. Vai aparecer outro, talvez não tão bonito quanto esse.
Nenito implora e pede para levá-lo e colocar no aquário. Argumenta que ninguém vai contar para a polícia.
– Não pode fazer isso. Se retirá-lo de seu habitat está fazendo algo errado. Mesmo que outros não vejam, essa atitude não é correta, explica Leopoldo.
– Vovô, eu entendi. O peixe dourado é o mais lindo. Eu não tenho o direito de ficar com ele, porque só eu poderia ver a sua beleza.
Com a ajuda do avô, desprende o dourado do anzol e o devolve para o lago…
*Conto escrito em parceria com Alessandra Oliveira.