O retorno de Ceciliana

Passava das seis horas da tarde. O sol ia se esvaindo no horizonte, enquanto a terra parecia dissolver-se sob seus pés. Tinha o coração apertado em meio ao turbilhão de pensamentos confusos. Depois de tanto tempo, Ceciliana estava de volta ao casarão. A névoa espessa do passado se abriu como uma cortina, revelando imagens fragmentadas. O lugar à cabeceira da mesa de jantar, cercada por oito cadeiras, de mogno escuro, agora estava vago.

Podia ouvir os passos abafados no tapete persa que atravessava a varanda de um lado a outro. O riso e as brincadeiras de criança, de quem viveu parte da infância feliz, até o dia em que perdeu a crença nos contos de fada. Na parede, os dois quadros resistiam, intocados: um com a imagem dos avós paternos; e o outro, com a foto da mãe vestida de noiva e de mãos dadas com o pai. Aquele sorriso era a prova de que um dia foram felizes.

Ceciliana foi até a janela e o cheiro silvestre aguçou suas reminiscências. Olhos fixos na extensão da fazenda que se perdia muito além da linha que unia o céu. Aquela prosperidade econômica nunca serviu para nada, exceto para alimentar o ego e a discórdia. Emiliano se transformara em uma lenda viva na região. Teve a vida inteira para mudar o destino, mas preferiu a clausura de sua solidão. Talvez, premido por receios imaginários.

Ceciliana sentou-se no confortável sofá do espaço living, abaixou a cabeça, apoiou-a com as duas mãos e desatou em choro convulsivo. Não conseguia aceitar a ideia de que um ser amado fechasse os olhos e não mais existisse. A despedida do pai promovera o seu primeiro encontro com a morte. Não estava preparada para aquele momento, porque na sua mente morrer significava o fim da vida.

Ali, a sós com seus sentimentos, experimentou a avassaladora sensação de vazio diante daquele cenário. Percorreu o olhar pelo ambiente e avistou na pequena mesa de apoio, o livro Além das fronteiras da mente, do mestre Osho. Abriu e leu avidamente algumas passagens que diziam: Há flores na morte, mas também há flores na vida. Durante milhares de anos, milhões e milhões de pessoas estiveram somente fazendo uma coisa: tentando parar a roda. Não a roda do carro, mas a roda da morte e da vida que gira sem parar.

O dia e a noite, o verão e o inverno – ambas a luz e a escuridão. É necessário aceitar as polaridades da vida para tornar-se tranquilo e inteiro no seu equilíbrio. Tudo o que Deus dá, tem de ser recebido com profunda gratidão.

Então, ela compreendeu que a origem de todos os males estavam na mente. E a menos que aprofundasse o conhecimento de sua natureza, não seria capaz de solucionar nenhum de seus problemas. A morte era apenas um capítulo de uma existência, que as pessoas pensavam tratar-se da vida inteira. É somente o amor que dá a chave de tudo que existe.

Fechou o livro e o depositou no mesmo lugar. Encolhida em cima do sofá, abraçou os joelhos e inclinou a cabeça sobre eles. Tudo havia passado tão depressa como um sonho. Agora compreendia que tanto a vida quanto a morte refletiam a força do imprevisibilidade. Sabia, que o segredo da saga humana resumia-se a viver profunda e intensamente cada segundo. Só assim, o medo da morte se transformaria em utopia.

Mergulhada em suas reflexões, olhou para a mãe que acabara de entrar, discreta e silenciosa na sua dor. Então, Ceciliana perguntou-lhe:

– Por que você não chorou na despedida de papai?

– Por sua causa. Se eu chorasse, você sofreria ainda mais e quem iria nos consolar? – questionou resignada.

A vida muda em segundos

Alberto lia um livro na poltrona da sala. Acompanhado de um cálice de vinho tinto, queria apenas relaxar das atribulações do trabalho que não o poupavam nem mesmo aos finais de semana. A leitura fora interrompida, quando Ceciliana anunciou que logo serviria o jantar, com muito amor e sem estresse, para celebrar os trinta e um anos de casamento. Nada de restaurantes ou badalações. O melhor era ficar em casa. Se ela preferia assim, assim seria.

No ambiente silencioso, à meia luz, a música ampliava a ausência daquela contagiante alegria do neto, que fora visitar os avós paternos no interior. Ao sair do banho, Ceciliana encontra o marido pensativo, ruga na testa, segurando com a mão direita o livro fechado em cima da perna. Cabelo molhado, vestido transparente, ela se aproxima e beija o amado. Ele sorri na calma cumplicidade. Antes de desaparecer em direção à cozinha, rodopia o provocante vestido, atira beijos e segue feliz.

Não era uma eximia cozinheira, mas sabia apreciar certo requinte. Conhecia bem as preferencias culinárias de Alberto. Cozinhar era um gesto de amor, que ela nunca deixara de externar à família, em meio a intensa atividade de professora universitária. Aquela delicadeza agradava o companheiro de tantos anos. A sós, eles confabulavam segredos, riam de situações pitorescas e planejavam sonhos como a viagem à Grécia no ano passado.

Ceciliana abre a geladeira e o cardápio de filé de frango grelhado com molho de mostarda e champignon está quase pronto. A secretária deixara tudo preparado. Pega com as duas mãos a tigela e leva ao forno. A tolha branca de rendas, os guardanapos, os talheres, o vinho, os cálices, tudo organizado à mesa. Ela sorri, relembrando cenas de outros jantares a sós com Alberto. A vida, que pode mudar em segundos, lhe dava mais do que ela pedia.

Acabara de ganhar um prêmio na universidade. Mãe de dois filhos extraordinários, que lhe deram três netos. O que mais ela queria? Sentia saudades da filha radicada no exterior, mas logo estariam juntas outra vez. Havia decidido reduzir as aulas na faculdade para dispor de mais tempo para curtir a vida. Estava tudo combinado. Alberto também prometera desacelerar no consultório.

Após os últimos retoques na cozinha, Ceciliana entrou na sala para chamar o marido. Notou que ele tinha a cabeça pendida sobre o peito, e no afã de surpreendê-lo, ela o repreendeu carinhosamente por estar dormindo. Sacudiu-lhe de leve o braço para despertá-lo. A taça caiu de sua mão, espalhando o líquido vermelho no sofá. Foi quando ela percebeu que ele não tinha reação. Aterrorizada soltou um grito de medo e pavor. Ninguém lhe ouviu. O seu convidado especial foi embora antes do jantar.

Duas vidas e um destino

— Você precisa educar a sua filha. Dê-lhe alguns conselhos para que não faça escolhas erradas, vociferou Emiliano à esposa, recém-chegado da rua, e seguiu para o andar de cima do velho casarão, sem esperar a réplica. Ela não ousaria desafiá-lo!

Dona Iolanda ouviu a rispidez na fala do marido e, simplesmente, ignorou. Sentada no sofá da varanda, acarinhava Sidney, que abria e fechava os olhos sonolentos. O angorá parecia ser o único ser naquela casa que a compreendia. Emiliano jamais dera o braço a torcer. Foi assim, quando levou Madeleine a estudar no convento, privando-a de sua única filha. A menina chorou, implorou, mas ele não cedeu.

Desde o conflito de terras na fazenda, com a presença do delegado e de um batalhão de policiais, que a vida das pessoas ali tinha mudado radicalmente. Os dois amigos romperam uma amizade de infância e nunca mais se falaram. O doutor Anselmo vendeu as terras e foi embora para o Mato Grosso. A viúva Quitéria foi morar com o filho mais novo na cidade. Só ficaram as lonjuras além horizontes. E, o tempo se encarregara de enrijecer posturas e agravar suscetibilidades.

Não foi a perda de alguns alqueires de terra que consumiu Emiliano ao longo dos anos, mas a traição do amigo. Colhido de surpresa pelo esbulho de sua propriedade, ato próprio de homens covardes, ele não conseguiu se recuperar do golpe.  No dia em que ambos saíram pela porta do fórum da cidade, cada um seguiu em direções opostas. A cicatriz daquela lesão moral era uma questão de honra que levariam para o túmulo, sem revisão de acordos.

Na época dos fatos, Madeleine tinha apenas cinco anos; Junior, o filho de seu oponente, sete. As famílias faziam planos e as duas crianças, na tenra idade da inocência, eram o alvo dos comentários dos pais, que orgulhosos, previam o futuro dos filhos como forma de unir as duas fazendas. Era preciso manter a tradição para perpetuar o nome de família nos domínios da região. Doze anos se passaram.

Os filhos não devem pagar pelos erros dos pais, repetia Dona Iolanda nos momentos de rara lucidez do marido. Aquela fala era uma tentativa de amenizar a polêmica que se avizinhava no futuro. A amizade proibida entre os jovens driblou toda e qualquer vigilância, e talvez por isso, que sem o saber, Emiliano andava desconfiado do comportamento da filha, que contava com a cumplicidade da mãe.

Estrategicamente, era sempre o pai quem dava a última palavra sobre o destino da menina. Três meses de férias depois que saiu do convento passaram rápido demais. Não tinha choro nem protestos. Madeleine iria morar na capital e estudar na universidade. Tudo para proteger a filha das amizades inconvenientes. Ela estava inconsolável. Só um milagre poderia mudar aquela situação. Os dias se aproximavam, quando Cida, a empregada, bateu à porta do seu quarto e entregou-lhe uma carta sem remetente.

Três semanas depois, Madeleine estava a caminho da universidade e esforçava-se para não deixar transparecer a sua euforia. Contida e mantendo a fisionomia de total resignação, ela arrumou as duas malas grandes com roupas e objetos pessoais. O pai estranhou aquela aceitação repentina, mas nada disse. Na carta, Junior lhe revelou os novos planos: a aprovação no vestibular de medicina para a universidade da capital.

A magia da comunicação

-Vossa excelência falta com a verdade ao justificar os fatos no seu depoimento.

-Como se sente perante a opinião pública?

-Nunca, jamais vou aceitar tal calúnia.

-Tudo o que eu disse está fundamentado na verdade.

Nos diálogos ou conversas a força da linguagem faz toda a diferença. As figuras de silepse e pleonasmos realçam a comunicação em sintonia com as normas e técnicas da Moderna Gramática da Língua Portuguesa. A escrita segue regras fixas e modelos padronizados, a exemplo das cartas, ofícios, convites, e-mails, bem como textos típicos de livros, revistas e jornais.

A arte de escrever é solitária. Seu domínio exige a organização do pensamento, a criatividade, a imaginação e a prática constante de leitura; a intimidade com as palavras e o senso crítico denotam a visão cultural de quem escreve. O código é dinâmico. Não admite gírias, mas aceita novas palavras reconhecidas oficialmente. É o link de preservação da história às futuras gerações.

Já a fala é liberdade total. O importante é comunicar. Os sinais linguísticos associados ao som da voz reverberam nuances de sentimentos e emoções. Ela é descomprometida com qualquer tipo de regras, porém, conta com o apoio extraordinário dos recursos como a expressão facial, a mímica, a gesticulação, a entonação da voz e a expressão corporal.

A fala abrange uma infinidade de talentos que a escrita não possui. É capaz de reproduzir e alternar, com fidelidade, a tristeza, a alegria, a indiferença, a vibração e tantos outros sentimentos. Ainda tem o dom de improvisar novas palavras e renovar o sentido das antigas, expressando pela gíria um contexto riquíssimo de comunicação.

         A fala e a escrita são instrumentos indispensáveis à comunicação humana. Ambas revelam a magia que encanta e reinventa a vida. Em meio às diferenças, expressam a visão do artista, do cientista, do professor, do trabalhador e de todos aqueles de livre pensar e sentir na revolução do cotidiano ao mais sofisticado nível de decisões. Duas inspirações na construção de um novo mundo.

O palestrante da esperança

Quinta-feira, manhã de sol, quando Jhony, mestre em ciência positiva, entra na sala de eventos, no hotel de um bairro nobre da cidade. Ele desperta a curiosidade das pessoas que estão ali para assistir a palestra do ano. Profissional da psicologia atua no desenvolvimento de carreiras. É a primeira vez que ele vai ministrar um treinamento para cerca de duzentos jovens.

Legítimo representante da comunidade japonesa, discreto no visual, circula livremente entre as pessoas, sem se apresentar.  O olhar sereno, de quem observa tudo e fala pouco. Veste um elegante terno preto, de gola alta, que acentua um ar de mistério, apesar da estatura de pouco mais de um metro e cinquenta.  Aquela roupa escura, sugere uma atmosfera mística. Leveza e agilidade indicam que ele tem alguma intimidade com as artes marciais ou com a dança.

Usa uns óculos de grau de cristal e quase invisível. Tem a pele clara e a fisionomia de um menino. Linguagem simples, fala mansa e mede cada palavra. A boca pequena expressa um leve sorriso de acolhimento a todos que aproximam. Quando questionado, fixa o olhar no emissor e lhe dedica sua total atenção e não perde nenhum detalhe do conteúdo da fala.

Embora pareça discreto, ele não passa despercebido, nem mesmo ao observador mais desatento. Cabelo aparado e desbastado cerca de dez centímetros na nuca.  No lado esquerdo, uma mecha cai levemente na testa, deixando transparecer no direito alguma tendência à futura calvície. Mas são as luzes douradas nos fios de cabelo, que lhe dão a aparência jovial e provocam comentários na plateia feminina.

Um grupo de mulheres já identificou o palestrante e uma delas não resiste e comenta com as demais colegas: “Eu nunca tinha visto um japonês louro!” Todas riem, mas aprovam o visual do palestrante. Outro detalhe, que também não passa despercebido: o modelo dos sapatos pretos parece destoar do conjunto. O design em um formato achatado lembra as antigas galochas, aquelas botas de jardineiro criadas nos anos 60.

Concentrado, Jhony verifica o som, a iluminação, testa o microfone e a mídia da palestra. Independente, ele não precisa de ajuda para acionar as funcionalidades dos equipamentos. Após ajustar o material de apresentação, ainda sobra um tempo para um cafezinho, algumas selfs na interação com as pessoas que se o procuram para entabular conversações.

Jhony é instrutor de coaching, um curso de alto impacto na personalidade humana. Dividido em dois módulos de quatro dias cada um. O segundo módulo acontece no final do mês, quando ele voltará para completar o trabalho de evolução na carreira profissional de jovens recém-saídos da universidade. A jornada será de oito a dez horas. Se diz atemporal. Seu público é conectado e ninguém está ali por acaso.

A primeira vista, o palestrante parece tímido. Entretanto, logo essa imagem se desfaz diante do potencial e do talento para encantar e atrair pessoas. Sua fala é um mergulho no inconsciente coletivo.  A empatia com a plateia é imediata. Ele fala sobre o autoconhecimento,  transformação e ação como poderosas estratégias na conquista de metas e objetivos  desejados.

Jhony inicia a palestra, contando a história de sua vida e suas indecisões na escolha da profissão. Na juventude, custou a descobrir o que queria fazer na vida. Passou pela informática, engenharia e relações públicas. Mas um dia largou tudo e foi trabalhar no Japão durante três anos. Lá, amigos e colegas, que se sentiam muito sós, o procuravam para conversar. Eles lhe diziam sentir-se aliviados depois dos diálogos. Foi assim, que ele descobriu o dom de ajudar pessoas.

Sua voz é calma e serena  e ele diz que cada pessoa deve honrar e respeitar a sua história. Para ser bem sucedido é necessário ser capaz de contar a versão de sua própria história e se orgulhar do caminho trilhado. Após três horas de palestras, o intervalo é de 20 minutos. Na volta, ele liga o som e convida a plateia para relaxar com uma animada coreografia, revelando-se um expert na dança. Quanto mais interage, mais aproxima pessoas.

O psicólogo usa a força da palavra para desperta o sentimento humano. “Descobri que é possível entrar em um estado físico e mental que integra ao mesmo tempo: alta concentração, criatividade, motivação, emoções positivas e alto desempenho”, explica para a plateia atenta. A concentração e a sintonia com o palestrante é plena. 

Ao final do dia, após oito horas de palestra, em pé, aqueles  estranhos sapatos fazem parte da longa jornada. O carisma do palestrante parece anestesiar a plateia, que não demonstra nenhum cansaço. Poucos perceberam que ele deixou os sapatos e está só de meias, na cor preta, circulando pelo salão. Os sapatos ficaram em algum canto da sala.

Encerra a palestra falando de uma revolução que produz prazer, satisfação e felicidade. Mostra uma realidade poderosa e pouco explorada que faz as pessoas evoluírem. Fala sobre um conjunto de competências e habilidades que pode ser desenvolvido por qualquer pessoa para alcançar um objetivo na vida pessoal ou profissional até vinte vezes mais rápido. A palestra de coaching é a sensação do momento.

A espera

A espera chega sem ser convidada e se instala sem pedir licença, feito invasora. Atrela-se ao destino das criaturas na alegria e na dor, na riqueza e na pobreza, na doença e na miséria. Não faz perguntas nem concessões e muito menos dá respostas a questionamentos. Faz do tempo e do silêncio as razões para estabelecer o pacto pela vida. Não dá garantias e esquece de rever acordos.

É filha única da paciência e irmã da esperança. Namora o tempo sem compromisso, disposta a fazer valer a temperança. Segue a retilínea trajetória de sua incansável jornada, indiferente à dor alheia. Sem pressa, envereda-se pelos descaminhos do destino, passando pela fila dos desprivilegiados, dos solitários e dos excluídos. Sem titubear, segue altiva e serena na ordem cronológica do tempo.

A espera é invisível e efêmera qual nuvem passageira. Sabe que é longa a jornada, mas não tem pressa de chegar. É a mãe que espera nove meses pelo filho que vai nascer. O criminoso que aguarda a sentença, enquanto o condenado anseia pela liberdade. A espera demora a expiar sua culpa, envolvida em intermináveis reflexões. Diz ao jovem sonhador que não há colheita, sem antes plantar. É preciso esperar a semente germinar para sentir o sabor do fruto.

A espera tem plantão nas filas de desempregados, nas incertezas da previdência e do assistencialismo. De mãos dadas com a esperança, ambas caminham unidas para a longevidade. Conspira a favor dos desejos e sonhos na esteira do universo e avisa que não importa quão difícil seja a trajetória, ela sempre fará projeções. Mas quem faz acordos com a espera, ratifica o dito popular: quem espera sempre alcança.

Olha para a criança que brinca despreocupada, alheia ao futuro, e passa apressada pela juventude. Trava a batalha na luta de matar um leão por dia pela sobrevivência. Mas quando se encontra com a velhice, estabelece o confronto e descobre que a luta não foi em vão.  Não há mais tempo para desperdiçar… indomável ela insiste: haja perseverança!

A espera é sozinha e como um pássaro cria asas para voar na direção do infinito. Vigia os enamorados que sonham com a esperança de um dia ficarem juntos para sempre. Só tem uma espera que não se justifica: a espera em vão. Não há nada mais injusto do que o telefonema que não vem; o encontro que é desencontro; o sonho irrealizável, as juras esquecidas, a doença incurável, a visita que desiste e a promessa que não se cumpre.

Nada é previsível

Tinha tudo para ser uma noite feliz. Mas quem disse que a vida segue planejamentos?  Meu velho pai dizia que “a gente faz um plano e Deus faz outro”. Na sua simplicidade ele apenas queria me dizer que os acontecimentos da vida são imprevisíveis. Uma verdade inconteståvel está na frase eternizada pelo grande poeta Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Confesso que na minha adolescência achava essa frase meio confusa, mas logo as experiências forjaram o meu entendimento.

Faço essa introdução para refletir sobre a tragédia que pôs fim a vida de um jogador de futebol bem sucedido, cujo caso ganhou repercussão na midia nacional pela crueldade humana. A família, que demonstrava alto poder aquisitivo e aparentemente pessoas do bem, convidaram seus amigos para compartilhar alegrias e fortalecer amizades. Quem diria que a festa de aniversário de 18 anos de uma jovem, momento inesquecível que deveria marcar sua vida de forma positiva, pudesse ter um desfecho inimaginável?

Os convidados certamente escolheram uma roupa especial para aquele dia, compraram um presente para homenagear à aniversariante, comentaram o evento com várias pessoas e até criaram um clima de inveja para quem não foi recepcionado com o convite em um ambiente tão luxuoso e requintado.  As pessoas se encontraram para viver intensamente, motivadas por uma conexão estabelecida pelo tempo de convívio. Elas escolheram confraternizar juntas aquele momento.

A imprevisibilidade da vida e a ação humana estão interligadas e nem sempre se comunicam pelo mesmo código.  Para alguns, festa é sinônimo de bebedeiras e folias. Está no imaginário coletivo de que é preciso extravasar e ir além dos limites para se autodesafiar. Que o sentido está em fazer muito barulho para que a sua ousadia não seja esquecida. “Encher a cara” é mostrar que não se está nem aí e que o sujeito detém o seu livre arbítrio para fazer o que bem quiser. Tal comportamento, muitas vezes, leva a consequências desagradáveis.

Depois de curtirem momentos que ficariam para sempre na lembrança das boas coisas da vida, as pessoas apagaram seus registros da memória em uma fração de segundos. Bastou alguém ultrapassar a linha tênue de um limite para que aquele grupo não mais se reconhecesse, anulando todo o tempo de convivência. De repente, o amigo virou inimigo e o convidado foi desconvidado. A festa de confraternização se transformou em uma confusão de sentimentos fora de controle. O bem foi substituído pelo mal e os assassinos se revelaram na cena do crime.

O jovem atleta perdeu sua vida.  Ele queria apenas colecionar o maior número de mulheres para a sua fama de pegador e acabou pagando caro pela brincadeira arriscada. A vida de sete pessoas saiu do ambiente luxuoso e requintado para exporem suas mazelas e se revelarem ao mundo sobre quem realmente são.  A máscara caiu. A vida entrega sempre a colheita do que se planta. Quem vivia na arrogância da ostentação, agora está na vitrine da rejeição humana.

Esta tragédia fere profundamente a nossa alma e expõe a iniquidade do ser humano. A realidade está posta em meio às contradições.  A única verdade é a imprevisibilidade da vida, diante da qual, devemos estar sempre vigilantes.  O equilíbrio é uma forma de manter o sinal de alerta ligado na diversidade do tempo. Pautar-se por comportamentos ilimitados, sem calcular o risco, é uma forma de morrer por nada. Afinal, nada é previsível!

Justiça e Impunidade

Desde os primórdios, o ser humano viola regras de convivência, fere seus semelhantes na comunidade em que vive e recebe a inexorável aplicação de uma pena. Na Idade Média o homem temia a Deus e acreditava que um dia chegaria ao Juízo Final para prestar contas de seus atos na terra. Nem sob a ameaça do fogo do inferno refreava seus instintos malignos.

Houve um tempo em que a justiça era implacável: dente por dente, olho por olho. Os infratores eram mutilados e reconhecidos perante a sociedade como os defraudadores do povo. Os tempos evoluíram, porém o ser humano continua irrefreável. Nesse mundo conturbado, vemos a impunidade triunfar e os usurpadores se multiplicarem como salvadores da pátria.

Os erros da igreja ao longo da história – que hoje está a pedir perdão – fizeram com que as formas de reconhecimento à divindade também mudassem. O homem não teme mais aquele Deus vingativo e estabelece com Ele uma relação de respeito e diálogo. Em nome de Deus, não se impõe mais o medo ao povo, e muitos defendem que o inferno é representado pelas mazelas e sofrimentos na terra.

Distanciado do freio do Senhor, o homem exercitou sua ganância pelo poder. Para ganhar o trono vale tudo, mesmo que à custa de mentiras e falcatruas. A corrupção tomou conta do planeta. De norte a sul, de leste a oeste, os escândalos se propagam e as autoridades não conseguem estancar a hemorragia, que se espalha incontrolável. Bandidos se mostram acima do bem e do mal.

Os assaltantes dos cofres públicos disseminam um rastro de morte por onde passam e livram-se com a maior facilidade da acusação direta. A injustiça provocada por aqueles que se intitulam donos do poder é uma bofetada no rosto do mais humilde trabalhador. O homem simples perdeu o direito à saúde, à educação, à segurança e, principalmente, o direito à informação, diante de tantos “fake news”.

 Milhares de pessoas agonizam na ausência de um tratamento de saúde digno, enquanto outras vivem em condições sub-humanas destinadas a morrer pobres, doentes e abandonadas pelo Estado. É inadmissível falar em fome em um país continental cheio de riquezas naturais inexploradas. Entretanto, em meio ao descaso e à insensibilidade, a violência potencializa a impunidade.

A redentora Operação Lava a Jato, sob o Comando do Juiz Sergio Moro, do Ministério Público e da Polícia Federal, levantou a ponta do Iceberg e a história do Brasil se inverteu.  Ex- presidentes, governadores, empreiteiros, empresários e políticos foram julgados, condenados e presos por seus crimes. Os brasileiros conheceram os mecanismos da corrupção e varreram do Congresso Nacional a velha política dando exemplo de cidadania. Finalmente o povo conheceu o sistema e tenta dar um basta ao mete a mão no dinheiro público.

É preciso que se restabeleça a ordem natural das coisas para que o bem supere o mal. Que a justiça ocupe o seu lugar e faça valer o respeito, a dignidade e a cidadania dos brasileiros! Que os culpados sejam condenados e paguem por seus erros! Que a prepotência se curve ante o castigo, a fim de que sejam recuperados os valores e seja devolvida a crença e a esperança ao homem comum! Que em 2019 o equilíbrio da justiça triunfe sob a desmoralização e a impunidade!

Um grito no silêncio da noite

country-road-in-fall_4460x4460

Estirado na rede da varanda de sua casa de campo, Oliver sorve um gole de vinho da Toscana – presente do amigo italiano – e descansa a taça na pequena mesa de apoio. O sol desaparece além-horizonte, enquanto as nuvens dançam na imensidão do céu. A silhueta das árvores revela o contraste com a tropa de gado no campo, ruminando silenciosa a espera do anoitecer.

Inspirado pela tranquilidade do ambiente, Oliver estira o braço, pega o violão encostado à parede e dedilha um solo de Miguel Luís, improvisando um dueto com o canto do uirapuru. Embalado pelas reminiscências de suas canções, perde a noção das horas. O entardecer entra em modo silencioso disposto a fustigar lembranças. Longe da família e dos amigos, Oliver anda cheio de mistérios depois que escolheu viver recluso junto à natureza.

Sereno como a alma de uma criança, ele não é nem a sombra do homem poderoso do marketing digital, que media o tempo em nanossegundos; o bem sucedido publicitário, que trabalhava dezoito horas por dia para atender empresas e organizações internacionais, viajava com tanta frequência que passou a viver dentro de um avião. A carreira de ascensão meteórica lhe rendeu uma vida milionária cercada de prestígio, luxo e vaidade. Até que um dia, sem aviso prévio, a vida decidiu cobrar a conta. Imagens ainda confusas não registram em sua memória quando ele saiu de órbita.

Dois anos passam tão rápido. Agora, está ali, a sós com seus pensamentos, quando ouve um grito aterrorizante vindo do interior da casa, interrompendo seus pensamentos. Sente o corpo estremecer. Dá um salto da rede como quem acorda de um susto e corre para o interior da casa a procura da estranha voz.  Aquele som ainda ecoa no ar,  indecifrável na sua cabeça.

Com um clique acende todas as luzes e aguça o olhar pelo interior da residência. Intrigado, percorre a imensa cozinha, revista os quartos do casarão, mas nada denuncia qualquer irregularidade. Nenhum vulto nem sombra. Vai até a piscina e não vê movimento algum. Tudo está calmo do jeito que sempre esteve. Não há sinal de violação no ambiente. Ouve apenas o som da cascata e do vento nas folhas das árvores.

De repente, em meio à escuridão da noite, Oliver sente frio e medo, pressentindo o fio de uma navalha na sua garganta. Entra na sala e pisa em algo viscoso e resvala, quase caindo.  A visão de uma poça de sangue o deixa transtornado. Não há rastros. Vai até a janela aberta e espia lá fora, procurando sinais de uma fuga imediata. De repente, experimenta uma sensação de vertigem, fecha os olhos, e por alguns segundos perde as forças a flutuar no espaço envolvido por uma espiral de sangue.

Horas mais tarde, tudo está calmo e no seu devido lugar. Oliver sente a brisa vinda da floresta e caminha lentamente até a varanda, sob o peso da decepção e uma tristeza que molha seus olhos no mais profundo silêncio de sua alma.  Até quando será refém das alucinações cada vez mais frequentes?

Nascida para ser intensa

laying-on-the-beach_4460x4460

Os contidos que me perdoem, mas nasci para ser intensa, disse a jovem aventureira, namorada de um estudante de engenharia. A frase ganhou manchete no jornal da cidade e surpreendeu os amigos. A morena educada e misteriosa se rendeu às evidências. Dona de olhos negros, sorriso perfeito e corpo escultural. Ela e o namorado foram presos pela polícia, que os acusa de serem os mentores do sequestro de um empresário e seu filho, que eram amigos de longa data do  rapaz.

Leanny era moça de vida dupla e seu trabalho sempre foi uma incógnita entre os amigos. Quando conheceu o namorado, ele tinha 180 quilos e sofria de obesidade mórbida. A família não acreditava naquele romance e desconfiava que Leanny quisesse tirar vantagem do rapaz de classe média alta. Entretanto, após uma cirurgia bariátrica, o rapaz demonstrou profunda transformação em pouco tempo, e Leanny  passou a ser vista pela família como a maior motivação dele.

Todavia ao contrário do namorado, Leanny escondia a origem humilde e cheia de contradições, e aproveitava para curtir a vida em glamourosas viagens internacionais. Nesse tempo, ela costumava desaparecer por alguns dias, desligava o celular e quando voltava ao convívio dos amigos, justificava a sua ausência, alegando uma  doença que a fazia se isolar. O casal escolheu manter a privacidade para despistar detalhes de suas aventuras.

Na prisão, e com a vida virada pelo avesso, a polícia quis saber de onde vinha tanto dinheiro para o casal frequentar lugares como Búzios, Disney, Miami e Hollywood. Os investigadores rastrearam e descobriram que eles se hospedaram em hotéis de luxo no Sul da Itália. Diante da inusitada situação, despontavam zonas de incertezas permeadas por uma cadeia de hipóteses e imaginações. A polícia já não tinha mais dúvidas de que existiam outras pessoas associadas nessa viagem.

O sequestro dos amigos apresentou detalhes de premeditação. Primeiro, o casal foi viajou ao encontro dos amigos e  saíram para jantar. Na despedida, os jovens retribuíram o convite e combinaram um novo encontro. Pai e filho combinaram a data que estariam na cidade e aceitaram visitar os amigos. Ao chegarem ao local, eles foram  enganados e sequestrados na porta da casa de Leanny. Uma equipe da polícia que estava nas proximidades desconfiou do movimento e interceptou o motorista, que não parou e foi abatido a tiros.

Os investigadores querem encontrar o fio da meada na interligação dos fatos, depois de constatar que o motorista morto no confronto era irmão de Leanny. Descobriram que ele também estava no local, quando da visita aos amigos, mas não se deixou ser visto. Por que Leanny estaria envolvida no sequestro? Seria a falta de dinheiro, drogas ou a adrenalina incontrolável? A motivação do crime seria desfrutar do luxo e das chances de ascender profissionalmente?

Ser bandido da vida moderna, em alguns casos, pode até ser uma escolha e não a imposição do meio. Por alguma razão, em algum momento, o namorado da jovem se deixou também seduzir pelo mundo fora da lei. Avistou a oportunidade, burlou a confiança da família e trocou a mansão por uma pistola automática. Praticar crimes se tornou um meio de viver perigosamente em meio às emoções.

Para os pais, classe A, ver o filho no crime é como a dor lancinante da pedra no rim. O estigma é tão desalentador que paralisa completamente a vida. Isto não quer dizer, que a dor de pais economicamente desprivilegiados (a exemplo da mãe de Leanny) seja mais suave. Longe disso! É a condição financeira que gera a repercussão social diante da fúria ou complacência da mídia.

Prestígio, vaidade e dinheiro. Esses são os principais motivos que levaram mulheres, muitas de famílias ricas, para o mundo do crime. O papel feminino e o comportamento em delitos de Leanny  somou-se as Suzanes Richtofens, Kellys (musa do crime)  e Ana Paula (integrante do crime organizado e assaltante de banco). Tais comportamentos se resumem a um ponto de interrogação, com histórias curtas no Jet set e nenhuma com final feliz.