Sonho roubado

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Com um beijo, diz adeus à família para viver na distante metrópole. Confessa à mãe que vai em busca de seu sonho para lhe dar uma vida melhor. Orgulhosa de seu menino, ela diz que não precisa de nada. Quer apenas que ele seja feliz. Recomenda para cuidar que ninguém roube o seu sonho. O pai o abraça calado e dá-lhe uns tapinhas nas costas. Os dois irmãos menores o cercam comovidos pela despedida.

Na capital, ele é apenas mais um na multidão. Sente falta da casa modesta e do ambiente seguro, enquanto perambula em quartos de pensão. Passa frio e fome, mas guarda o segredo das suas mazelas. Traz no olhar a esperança, o sorriso fácil e aquele jeito de menino travesso.  A alegria esfuziante demonstra certa ingenuidade. Ele só quer ser um jogador de futebol.

Conquista a vaga de titular no time e sua estrela começa a brilhar. É um desportista em ascensão. Além do status, tem bom trâmite na mídia, cuja amizade rende algumas notas de jornal. Nada, nem mesmo a disciplina do esporte, o impede de aproveitar a vida ao máximo. Conhece Luciana e o amor vem na medida exata de seu coração. A filha de três anos é o seu maior tesouro.

Um dia descobre, não por acaso, que não fora feito para ser fiel. Afinal, porque ficar preso a uma única mulher, quando é assediado por dezenas delas: loura, morena, branca, mulata. Mulheres fortes, frágeis, suaves e encantadoras o seduzem. Livra-se das amarras do casamento e volta às badalações. Curte a vida, pois tem pressa em viver.

A noite do aniversário de Iolanda promete grandes emoções. O encontro está marcado há um ano. Dirige o carro e segue para o bairro nobre da cidade. Antes, liga para a mãe e conta que irá se divertir em festa de grã-finos. Ao desligar o celular, ouve a mãe dizer: filho, não fique bêbado! As mães sempre sabem o que dizem, mas os filhos sempre se fazem de moucos.

Passa da meia noite. Identifica-se na recepção e, é conduzido ao camarote da aniversariante. Os amigos o recepcionam aos brados com um Chivas Regal 18 anos. Na ousadia, entorna o copo num único gole, sentindo a vibração da galera. Refeito do embate, observa o cenário, e seus olhos cruzam com o olhar de uma mulher, loura e sensual, de beleza estonteante.

Com um jeito tímido, sustenta aquele olhar, e só desvia os olhos com a chegada da aniversariante, acompanhada das amigas animadíssimas. Cumprimenta a dona da festa, que parece flutuar em seu vestido transparente e esvoaçante.  A noite é puro glamour. Envolvido pelo som eletrizante da festa, deixa-se levar até a pista de dança. Curte o ritmo das coreografias animado.

 De volta ao camarote, sente a suave carícia no pescoço que o arrepia dos pés à cabeça. A explícita sedução o inquieta. Ofuscado pelo jogo de luzes, olha para trás e vê a loura enigmática, bem no instante em que a aniversariante o convida para conhecer a sua mãe. A sensação de tremor perpassa pelo corpo ao ser apresentado para a mulher do olhar intrigante. Algo lhe diz que ela não o deixará em paz.

Em meio àquela situação confusa, Lúcio recorre à bebida para disfarçar a insegurança. Quase nem consegue manter-se em pé e se apoia no balcão. Revela ao amigo que está em apuros e a razão é uma mulher que está na festa. É alertado para não cair na cilada, porque o marido é ciumento. Melhor ficar longe. Mas ela não desiste.

Fim de festa. Lucio se prepara para ir embora, quando recebe o convite para continuar a balada na casa da aniversariante. Sem se dar conta, Lúcio vai parar numa mansão que ele nem sabe quem é o dono. Vê a mulher da festa no mesmo ambiente e se anima. Percebe que o cérebro processa lento e, então, decide ir embora, mas os amigos o impedem. 

Mais tarde, enquanto os convidados estão na piscina, Lúcio anda pela casa vazia. Pela porta entreaberta avista a mãe de Iolanda deitada na cama. Entra no quarto e fecha a porta atrás de si. Aproxima-se da cama e vê que ela abre e fecha os olhos, esboçando um sorriso de quem consente; a sua presença não a desagrada. Jamais perderia aquela chance de zoar com os amigos.  Saca uma foto do celular ao lado da mulher e compartilha na mídia social. Está gravando o vídeo, quando a porta se abre.

Pego em flagrante, ele não tem o que explicar.  Ao ver a cena, o marido parte para o ataque disposto a tudo. Desfere um soco na cara do atleta, que faz jorrar sangue pelo nariz. Nocauteado, Lúcio cai como um trapo no chão. Testemunhas veem quando dois homens entram no quarto e ajudam a dar pontapés e tapas no rosto do jogador. Tomado pelo desespero, quase sem forças para reagir, grita por socorro. Mas ninguém aparece.

Por volta do meio dia, o amigo estranha a falta de notícias. Sem imaginar o pior, começa a procurá-lo pelo celular.  Ninguém viu nada, ninguém sabe. Lúcio simplesmente desaparece. A aflição e a angústia tomam conta da família. O pai de Iolanda oferece ajuda para localizar o jovem. Dois dias depois, Lúcio aparece morto perto de uma estrada rural, com sinais de degola e com o órgão sexual decepado. A crueldade humana roubou seu sonho. Ele perdeu o jogo da vida…

O mal entendido

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                                          Dívida, ódio e revolta…

Na pacata cidade do interior, a velhinha entra no departamento de cobrança da loja disposta a tudo. Um metro e meio de altura, pele enrugada, magrela, usa um vestido floreado e longa cabeleira grisalha descendo pelos ombros. Do lado direito, aperta a bolsa a tiracolo como quem teme ser roubada.

A velha transpira indignação e mau humor. Ansiosa, pressiona o corpo contra a quina do balcão de madeira, ergue-se na pontinha dos pés, realçando os calcanhares rachados nas sandálias de cor marrom e salto quadrado, estica o pescoço e vê o funcionário do outro lado, sentado, de cabeça baixa, alheio a tudo,  fazendo suas anotações.

De tanto ouvir na mídia: procure o seu direito, a velhinha não arredaria pé sem a solução do caso. Agora eles iriam aprender a não maldar com os outros. Impaciente, após alguns segundos, força um pigarro para atrair a atenção do funcionário, que olha com o rabo do olho, mas faz de conta que nem é com ele.

A experiência na roça, de sol a sol, ensinou-lhe que o dia começa cedo e tempo não se perde. A velhinha fica por alguns instantes pensativa, com olhos fixos num ponto qualquer do comprido balcão. Cerca de oito minutos depois, vê quatro pessoas sentadas a espera de serem atendidas e resolve agir. Bruscamente, abre a bolsa, tira um envelope branco e vocifera:

— Paguei a minha conta e vocês mandaram esta carta, dizendo que estou em dívida. E acrescenta: Olha aqui, eu não sou caloteira, afirma do alto da sua insatisfação.

O desabafo em voz alta chama a atenção da restrita plateia que pressente no ar a armação de barraco. Diante de tanta veemência, o funcionário levanta-se da cadeira, põe as mãos no queixo, apoiando os cotovelos sobre o balcão, em clara demonstração de má vontade. Sozinho no setor, enquanto os colegas ainda estão no intervalo do almoço, resolve aplacar a ira da velha e sem muito tato repete obviedades.

— A senhora há de convir, que se recebeu uma carta é porque tem um débito. Tudo está registrado em nossos computadores, diz o funcionário, certo de que a velhinha só veio fazê-lo perder tempo.

Sem nenhum sinal de recuo, com ódio nos olhos, ela dispara uma resposta à queima roupa, negando tudo. Avisa que não vai pagar duas vezes e ameaça chamar a polícia. Junta os olhos, franze as sobrancelhas, e sem dar tempo para o funcionário, descarrega toda a sua ira.

—  Moço, vocês trabalham muito mal e a gente é quem paga o pato”, gesticula, furiosa.

O pato, que não tinha nada a ver com a história, entra nessa de graça. A velha sem titubear, exige uma decisão imediata, encostando o funcionário contra a parede.

— O senhor vai ou não vai resolver o problema?  Indaga, com ar de quem está gostando do combate.

O clima esquenta. O gerente chega e paralisa diante do escândalo. Tenta disfarçar a sua presença, folheando as páginas de uma revista. O funcionário está sem saída, limitado em suas habilidades e o chefe nem se manifesta. A velha está longe de ceder e muito menos de fazer qualquer acordo.

Já estressado, o jovem nem escuta mais o que a velha diz. Faz um muxoxo como se não tivesse nada a ver com aquilo e imagina, que se pudesse, estaria com uma arma na mão para livrar-se dos caloteiros agressivos. Tudo o que ele mais deseja é que aquela criatura cale a boca e vá embora.

— Senhora, o computador não erra. Tudo é registrado automaticamente, ainda insiste o atendente confiante na sua tecnologia.

Disposta a se vingar do relapso funcionário, a velha sai resmungando baixinho. Aliviado com a saída da intrusa, o gerente tranquilamente se dirige a sua sala e tudo volta à normalidade. Os clientes comportados fazem fila para a liberação de crédito. De repente, dois homens fardados invadem a loja, acompanhados da velhinha, que dedo em riste, aponta para o seu algoz.

O pobre funcionário acuado e temendo pelo futuro, antevê que a velha é do tipo que não se rende fácil. Só então, o corajoso gerente aparece para esclarecer os fatos, propondo um acordo para encerrar de vez o caso.

— Eu não quero acordo, nem indenização. Só quero o meu direito e não saio daqui, enquanto não tirarem o meu nome dessa sujeira, vocifera a revoltada anciã.

No local, os policiais percebem o mal entendido e orientam a ofendida consumidora para formalizar a sua denúncia de perdas e danos em ação judicial. O gerente, atazanado, pede um prazo de vinte e quatro horas para restituir-lhe o valor da dívida cobrada, alegando tudo a um terrível engano. Dona da razão, ela sai triunfante e com um olhar severo alerta o funcionário:

— Nunca mais tente enganar ninguém, nem ponha a culpa no computador, sentencia e afasta-se  indo embora com a consciência tranquila de quem não deve nada a ninguém, nem mesmo aceita que lhe passem a conversa.

Até quando?

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A cada 15 minutos uma mulher é agredida no Rio de Janeiro, segundo o Instituto de Segurança Pública estadual. Em um ano foram registrados 39.646 casos de lesão corporal dolosa e lesão seguida de morte. Especialistas dizem que esses números podem ser bem maiores, já que muitas mulheres não denunciam as agressões sofridas dentro de casa.

Seis mulheres morrem a cada hora em todo o mundo vítimas de feminicídio por conhecidos, diz o relatório da ONU, divulgado em novembro de 2018. No ano passado, 87 mil mulheres morreram, sendo que 58% foram assassinadas por ex-companheiros, ex-maridos ou familiares. De acordo com o documento, o lar se transformou “no lugar mais perigoso para as mulheres”.

A violência contra a mulher acontece em todas as classes sociais e de diversas formas e intensidades, com crimes de graves violações de direitos humanos. O silêncio é o maior cúmplice dessas vítimas.  Não raro, a responsabilidade se volta contra a própria mulher que busca se libertar da opressão. Em muitos casos, é como se ela fosse culpada por ter encontrado um novo relacionamento ou simplesmente porque ele bebeu e perdeu a cabeça.

A agressão à mulher tornou-se um crime recorrente no cotidiano feminino e começa de maneira muito sutil. Primeiro, começa com palavras grosseiras, depois empurrões e tapas, que fogem ao controle. Todos esses tipos de violência ocorrem dentro de casa, em via pública ou estabelecimento comercial, por tempo de longa duração e que podem ser prevenidos.

Vários casos de assassinatos chamam a atenção no Brasil e revelam a conduta violenta, cruel e brutal de quem deveria proteger a mulher. Um dos casos estarrecedores aconteceu com a advogada que foi morta por um marido covarde no Estado do Paraná. A modelo Luiza Brunet, agredida pelo marido, aceitou expor a sua vida na mídia para ajudar outras mulheres a defenderem suas integridades.

Recentemente, um empresário e ex-diplomata foi preso e denunciado pela ex-mulher por agressões flagradas em filmagens feitas pela própria vítima e exibidas em rede nacional. As imagens mostram um homem totalmente descontrolado em cenas de tapas, tentativa de enforcamento, incluindo ameaças de morte a ela e à família. Essa não foi a primeira situação e outras mulheres relataram que também foram vítimas.

Na região metropolitana de Porto Alegre, uma mulher de 25 anos, com medida protetiva da justiça, foi morta a facadas pelo marido. Inconformado com o fim do relacionamento, ele teria afirmado que “se ela não ficasse com ele, não ficaria com mais ninguém”. A maioria dos crimes ocorre quando a mulher quer romper com uma situação e o homem não aceita que ela possa conduzir a própria vida.

De acordo com o artigo segundo da Lei Maria da Penha, “toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social.”

Atualmente, o combate à violência contra a mulher lida com míseros recursos do governo federal, além do sucateamento de políticas públicas. A Lei Maria da Penha tornou-se um desafio e seus mecanismos se revelam pouco eficazes no combate à violência doméstica. Cabe à família, à sociedade e ao poder público criar as condições necessárias para o efetivo exercício dos direitos da mulher. A medida protetiva da justiça é quase sempre descumprida e mulheres são assassinadas. Até quando?

A proteção veio do céu

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Agosto de 1945. Término da Segunda Guerra Mundial. Naquele tempo as notícias demoravam a chegar ao Sul do país. O velho Casarão da Caixa D’água estava longe de ser uma fortaleza, onde o Exército instalara um novo posto de guarda e segurança. Havia boatos na cidade sobre o envenenamento da água que abastecia a população. Falava-se em dizimação em massa de pessoas como vingança dos alemães e italianos por terem perdido a guerra.

Aquele final de tarde era o primeiro serviço do comandante da Guarda no posto de segurança, distante cerca de trinta quilômetros do povoado. Relâmpagos triscavam o céu no horizonte, enquanto um cusco preto latia enlouquecido no gramado. O cão, que é intuitivo, tem a visão e o faro aguçados. Ele parecia pressentir o perigo. Naquele momento, o comandante da guarda chamou o soldado para fazer a ronda noturna. Uma hora depois, estavam de volta, escoltados pelo vendaval como o prenúncio do caos.

Anoiteceu e o temporal chegou arrasando tudo. O vento forte inclinava as árvores e agitava o matagal. O comandante espiou pela janela, lá fora, e viu raios que riscavam fogo e abriam clarões na floresta.  Nunca tinha visto a natureza com tanta fúria. O ribombar dos trovões pareciam desafiar os canhões do Exército. Fechou a janela e aquietou-se perto do fogão a lenha.  O motorista do quartel não apareceu para trazer o jantar. O soldado e o caseiro improvisaram um lanche para passar a noite.

Chuva, frio e ventania. O gemido do vento era de arrepiar. Portas e janelas rangiam as dobradiças enferrujadas. Os relâmpagos se tornavam cada vez mais intensos. A tempo, o comandante olhou novamente pela janela e viu quando os galhos da gigante árvore que protegia o casarão inclinaram-se na direção do solo como a pedir clemência. Rápido, fechou portas e trancou janelas.  A comunicação pelo rádio havia se perdido. Com fome e sem nenhum apoio, eles estavam completamente isolados.

Na cozinha, o soldado acendia uma lamparina de querosene. Vigilante, cuidava em manter a chama acesa para economizar a lanterna de pilhas. O comandante estava bastante apreensivo, mas tentava manter uma aparente tranquilidade.  Afinal, toda a responsabilidade sobre aquele local era dele. Pressentia que o velho casarão poderia se transformar em ruína a qualquer momento. Viu o medo nos olhos dos companheiros, sem  menosprezou o tamanho do problema. Engoliu um café com pão e queijo e foi dormir.

No salão do alojamento havia duas camas de solteiro, ambas de ferro: uma para o comandante e outra para o soldado. Algo sinalizava que aquela noite seria sinistra. O comandante deitou-se e permaneceu por algum tempo com olhos fixos no teto que se iluminava a cada segundo. Do lado oposto, dormiam o caseiro e o vira-lata, acostumados à rotina do lugar. Lembrou-se de sua mãe e sentiu saudades de casa. Em seis meses, fazia carreira no Exército Brasileiro e já mandava nos soldados. Missão dada era missão cumprida!

O soldado logo adormeceu, alheio a guerra no céu. O comandante voltou-se para o lado da parede e fechou os olhos, escutando aquele ruído assustador.  De repente, ouviu-se um estrondo. Era como se um furacão tivesse rompido do alto. Viu pelo clarão do relâmpago, aquela árvore gigante desabar sob o casarão. Levou a mão na ingênua tentativa de segurar a árvore e rápido deslizou o corpo para debaixo da cama. Um rombo abriu-se no telhado do velho casarão e a chuva invadiu impiedosamente.

A avalanche d’água, o vento e o frio transformaram aquele lugar num verdadeiro hospício. Preso embaixo da cama, sentiu a água gelada encharcarem as suas roupas. Parte da árvore impedia a sua saída. As pernas doíam muito. Ficou ali, inerte, sem saber por quanto tempo. Chegou a pensar que não sobreviveria.  Em meio ao dilúvio, nada podia fazer nem tinha a quem recorrer. Aquele cenário era a visão do inferno.

Chamou pelo soldado e o alertou para se proteger. O aposento do caseiro estava a uns vinte metros dali. O homem era deficiente e não conseguiria se locomover, já que a perna esquerda era mais curta devido a paralisia, o que dificultava seus movimentos. Precisava ajudá-lo.  Chamou-o por várias vezes. Gritou por seu nome, mas não ouviu resposta. Enquanto isso, o temporal não dava tréguas. Esperou algum tempo e voltou a chamá-lo, porém mais uma vez não houve resposta.

Depois de algumas horas sob rugido do temporal, reuniu forças e conseguiu afastar os galhos que obstruíam a sua saída. Com esforço, arrastou-se em meio a lama e foi abrigar-se próximo à parede em um lugar mais alto. Ali, sentou-se  e ficou em silêncio a espera que o dia clareasse. Aos poucos, os trovões foram cessando, a intensidade do vento diminuiu, mas a chuva continuava intermitente. Era como se estivesse dentro de um rio caudaloso.

Preocupado com a vida do caseiro, o comandante equilibrou-se na difícil tarefa de caminhar entre troncos, galhos e folhas. A cada passo, seus pés dançavam dentro dos coturnos cheios de água. Ao aproximar-se viu que parte da parede do casarão estava inclinada sob a cama do caseiro e pensou na tragédia inevitável. Retirou  pedaços de madeira que obstruíam o caminho e foi esgueirando-se  em meio aquele ambiente confuso.

O comandante estava exausto. Contornou os obstáculos e conseguiu entrar por um espaço entre duas paredes que haviam cedido. Um rio de águas passava por ali. Olhou por uma fenda da pranchada e viu um corpo encolhido sobre a cama. Hesitou. Estava desolado. Chamou o soldado: “Me ajuda aqui, companheiro!” Precisava de alguém para testemunhar aquele momento. Com cuidado, afastaram as tábuas que impediam o caminho e entraram no diminuto espaço fechado pelo temporal.

Ali dentro daquele espaço não chovia. Com uma das mãos tocou no pé do caseiro e com a outra puxou a manta. “Tá tudo bem, senhor!”, disse o homem em sobressalto. Ao ouvir a voz do caseiro, o comandante paralisou diante cena, só despertado pela implicância do vira latas que latia sem parar. O curso da enxurrada se desviou e parte da parede formou uma espécie de casulo sobre a cama, isolando o homem e o cão daquele caos. Ambos dormiram toda a noite, salvos pela proteção que veio do céu.

A cidade clama por justiça

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Cidade Universitária e Centro Estudantil são títulos de um lugar que acolhe jovens de diferentes rincões deste país, em especial do interior do Rio Grande do Sul. Localizada no coração do estado, a cidade habita uma gente forte e aguerrida.  Todos os anos, jovens sonhadores ali aportam para ficar um tempo, beber da fonte do saber e depois partir para novas aventuras.

A cada ano, esses jovens reinventam novos espaços para suas conexões, atraídos pelo convívio de uma geração que vive o auge da liberdade de expressão. Filhos da Constituição de 1988, exuberantes e donos de si, trilham seu próprio caminho, muitos deles distantes do olhar paterno. Nada os detém, exceto o desejo de alçar voos cada vez mais altos.

A missão da cidade é projetar o talento de seus filhos para o orgulho de sua gente. Cada nome que se destaca no cenário nacional ou internacional é como se fosse um troféu. Outrora, não se ouvia falar de violência, corrupção nem desgovernos, embora os esquemas e estratagemas fossem tramados nos mais recônditos abrigos. Todavia eram tempos de esperanças. Hoje, a cidade que resplandecia vida e liberdade além-horizontes mudou completamente.

Sempre delimitou diferentes espaços para acolher a juventude. A Avenida Presidente Vargas, por longo tempo, foi um dos points de reunião de amigos. Eles estacionavam seus carros ao longo da rua, bem no finalzinho das tardes de domingo para a prosa da semana, acompanhados do som dos mais diversos estilos musicais e do inseparável chimarrão. Uma multidão tomava conta daquele lugar para encerrar o fim de semana com alegria e animação.

Hoje, sobre a cidade paira uma névoa invisível que separa o ontem do hoje. O sentido da vida foi assassinado pela incoerência da mais arrebatadora loucura, que repercutirá para sempre no coração humano. Jovens projetaram seus nomes para o marketing da eternidade, porém, suas imagens e seus sorrisos ainda vagam pelo inconsciente coletivo em dias de vento norte.

A cidade amanheceu sob o signo da morte, com sua comunidade   aterrorizada.  De norte a sul, de leste a oeste, seu povo chorou. O chão sagrado se inundou de lágrimas de sangue e sensibilizou o mundo. A dor e a tristeza tomaram conta das ruas. Naquele dia, 242 jovens embarcaram em uma aventura para nunca mais voltar.

Desde então, o luto e a saudade ocuparam lugar permanente no coração da cidade. A alegria cedeu lugar para o monumento aos mortos que lembrará para sempre a dor e a tristeza que nunca terão fim. Um arquiteto simbolizou a presença de cada história que servirá de alerta à responsabilidade de todos no compromisso com a vida.

Aqueles que chegaram depois da tragédia ainda tentam reconstruir novos espaços, mas é como se tivessem perdido o link. A conexão ainda é lenta. Mas um povo forte e aguerrido não desiste nunca. Não importa o tempo, Santa Maria da Boca do Monte clama por justiça. A cidade jamais esquecerá seus filhos que tombaram pelo caminho.